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uma caixinha de lembranças aberta em um blog de histórias: leia as curtas, os esquetes, de uma só vez ou o começo, o meio e o fim

O mar de Clementine – De uma só vez agosto 25, 2009

Filed under: De uma só vez — Denize Guedes @ 11:07 pm
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Eram quatro horas da tarde de um mês de férias. Como de costume, todas as crianças da vizinhança estavam na casa de Clementine para brincar no quintal. A senhora Enright já havia preparado seu tradicional suco de tangerina, feito com a fruta que caia aos montes dos dois pés plantados no jardim, e ia enchendo o copo de um por um conforme a sede daquele dia de calor extraordinário exigia.

Parecia que até o sol tinha resolvido aparecer para espiar a mais nova atração dos brinquedos de Clementine. Era uma grande praia artificial. Grande mesmo, que, de tão grande, parecia de verdade. Tinha areia, pedras onde as ondas baterem, plantas verdinhas nas encostas, pontes para andar por sobre a água, uma estação de petróleo, deques para olhar o pôr-do-sol sentado com os pés balançando. E água, muita água, água funda, água de verdade. O vento que batia até fazia as pequenas ondas rebrilharem a luz que vinha do céu e impressionarem os olhos afoitos das crianças. Em volta de todo o descomunal brinquedo, havia desenhos de casinhas a beira-mar, o horizonte infinito, carros margeando a imensidão azul e prédios altos bem do outro lado.

Piscina da Barbie era brinde de McLanche Feliz perto daquilo. Ainda mais quando Clementine começou a dispor todas as suas Barbies e Kens, devidamente trajados com roupas de banho. Aquilo começou a ganhar vida. Os demais trataram também de pegar os seus e, rapidamente, dezenas de outras Barbies, Kens e hominhos povoaram o mar de Clementine ali no quintal. Alguns estavam bem a caráter para a ocasião – havia até salva-vidas –, outros de noivos que tiravam fotos para o álbum de casamento e outros de calça jeans e camiseta andando por aí numa tarde de verão. E todos faziam sentido.

Clementine estava feliz. Era um jeito de se sentir perto do pai. Não à toa, escolheu um bonequinho de camiseta laranja, cor do uniforme do senhor Enright, para ficar pescando tranquilo numa das encostas. Tratou logo de avisar todo mundo que aquele era seu pai, deixou-o pescando sossegado e foi colocar suas outras bonecas para tomar sol com as das amiguinhas. Montar cabanas, pilotar navios e pequenos barcos para lá e para cá ficou a cargo dos meninos.

O vento soprava e as ondas batiam quando deu cinco horas. Foi a hora em que tocou o telefone e a senhora Enright teve de entrar para atender. Foi também a hora em que o pai de Clementine caiu no mar. Ela só se deu conta, quando o bonequinho já ia boiando bem lá pelo meio do seu mar.

Ao invés de se preocupar, levantou e foi atrás daquilo que seu pai havia lhe dito que servia para “esse tipo de emergência”. Entrou em casa avisando aos amiguinhos que voltaria com um heicóptero (Clementive tinha dificuldade com a letra ‘ele’, mas estava aprendendo). Passou pela sala sem sequer notar a cara da mãe ao lado do telefone, era ainda muito pequena para isso. Vasculhou o baú e voltou com um helicóptero amarelo de brinquedo pronto para o resgate. Liam, o vizinho da casa em frente, que até ali apenas observava, sacou seus homenzinhos bombeiros e se prontificou a cuidar da empreitada de salvar o homenzinho laranja boiando em alto mar, as pequeninas atenções voltadas para aquilo.

O senhor Enright passava longas temporadas distante da família. Sabia que sua filha sentia muito a sua falta e andava trabalhando em uma forma de atenuar isso. Quando faltavam poucos dias para partir de novo, explicou a ela, do jeito que uma criança de cinco anos consegue compreender, o que fazia quando estava longe. “O papai trabalha pescando coisas preciosas de dentro do mar. Eu demoro tanto porque, tudo o que é precioso, leva tempo para a gente encontrar e cuidar.” Ao que ela respondeu com a lógica perfeita e intrigante dos cérebros em formação: “Ué, você fala que eu sou preciosa. Por que demora tanto tempo longe de mim, então?”.

Eles estavam na rede que fica pendurada nos pés de tangerina. Ficou sem reação e um pouco indeciso em como responder. Por fim, conseguiu dizer algo.

– Você é a coisa mais preciosa que eu tenho neste mundo e está sempre comigo. A gente nunca se separa porque eu carrego você aqui dentro, bem guardadinha aqui dentro – apontando para o peito. – Mas para não parecer que estou longe, amanhã vou trazer uma coisa para você também se sentir comigo, como eu me sinto com você, mesmo quando a gente não está assim grudado na rede, como os gominhos da tangerina.

Dia seguinte, Clementine acordou e foi correndo procurar o pai. Queria saber o que era aquilo que faria a sentir tão perto dele. Encontrou-o no quintal, enchendo uma grande estrutura com bastante mar. Passaram o dia mexendo naquilo. Ele explicando coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar. Ela aprendendo tudo. Para cuidar dele quando não estivesse ali.

Quando a menor dos Enright entrou pela sala para contar à mãe sobre o sucesso do resgate de seu pai, hesitou diante das várias lágrimas que viu caindo de seu rosto, mesmo que tentando disfarçar. Tão afoita estava para dizer que haviam executado a operação com destreza, exatamente como deve ser feito nessas situações, mas recuou por uns segundos. “Por que você está chorando?”, sentando-se ao seu lado no sofá com as perninhas suspensas.  Como não obteve resposta, voltou ao plano inicial. “Olha, o Liam acabou de salvar o papai do mar com o heicóptero, está tudo bem com ele. Não fica brava, a gente vai limpar tudo.”

A senhora Enright até esboçou um ar de riso com a preocupação da filha em meio às lágrimas insistentes. Puxava fundo o ar e pensava que não poderia explicar, não importasse quais palavras escolhesse com cuidado, que seu pai caíra da estação de petróleo.  Foi tirada do difícil colóquio consigo quando o telefone tocou de novo.

Ela atendeu. Ouviu o que lhe disseram do outro lado. Colocou a mão direita sobre a boca, piscou molhando a mãozinha de Clementine que estava em seu rosto, olhou fundo nos olhos da filha e desligou.

– O que foi, mamãe?

– Um helicóptero resgatou o papai. Ele está voltando para casa.

Clementine deu um pulo do sofá triunfante da brincadeira que havia dado certo – era ainda muito pequena para saber o que era correr perigo – e saiu correndo para contar a novidade aos amiguinhos. Por algum motivo, aprendeu a pronunciar o ‘ele’ naquele dia. Ainda antes do pôr-do-sol.

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É muito melhor assistir ao vídeo no Vimeo (não sei por quê não consigo embedar aqui), clique aqui e veja a diferença!

 

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