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uma caixinha de lembranças aberta em um blog de histórias: leia as curtas, os esquetes, de uma só vez ou o começo, o meio e o fim

Do you wanna have fun?! – De uma só vez agosto 14, 2009

Filed under: De uma só vez — Denize Guedes @ 9:24 pm
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Foi agora há pouco, em meio a esta bagunça de verde-azul-amarelo-vermelho-black-out-total-tudo-junto na pista de dança, que uma ficha caiu dentro dela. O gatilho de tudo foi “Girls just want to have fun” que está tocando. As garotas cantam em coro, mexem os quadris, erguem os braços alternadamente, dão um gole na cerveja, semi-cerram os olhos, viram a cabeça de lado e soltam gritinhos. Inclusive ela, segundos atrás. Fazendo charme para os garotos – e, algumas, para as garotas mesmo. Já eles alternam peso entre o pé direito e esquerdo, dão um gole na cerveja, conversam entre si e observam. Alguns se aproximam de alguma garota, colocam a mão em volta de suas cinturas e iniciam conversas em que nem estão tão interessados.

Como dentro de uma bolha, ela fica ali meio alheia, mas com o olhar fixo num barbudinho que tinha chamado sua atenção. Tinha lido há pouco tempo que há 21 anos “Girls just want to have fun” era lançada, colocando Cyndi Lauper no topo de todas as paradas, de Nova York a Tóquio. Sucesso estrondoso, era (é) como um hino, um código comum, uma liga, que provoca uma comunhão entre as garotas. Hoje em dia, nas festinhas dos anos 80 tão na moda, é hit quase obrigatório. Isso era ponto pacífico para ela. O que a paralisou de fato foi constatar que, completada a própria maioridade da música, as garotas que querem apenas se divertir continuam sendo vistas como as garotas para apenas se divertir. Sacou?

Está puta (de raiva) com isso. E a partir disso. É claro que ela sabe que a sociedade continua muito machista, apesar dos ditos avanços feministas. Aliás, tem muitas considerações em relação ao movimento feminista. Reconhece seu mérito, mas critica sua luta quase reducionista de igualar a mulher ao homem – o que é um absurdo. Que queimar sutiã que nada! Conseguiu alguns avanços formais que, na realidade, fazem a mulher trabalhar às vezes mais que o homem, ganhando muitas vezes menos. E outras tantas coisas nessa linha. Mas no item mentalidade mesmo, não avançou muito. Aliás, deturpou. Além dos garotos continuarem tendendo a achar dadas as garotas que tomam a iniciativa, não sabem direito como agir com elas. Ficam perdidos.

Por que as garotas não podem ter o direito de apenas se divertirem em paz sem ter de se preocupar com os pesados “e se ele me achar muito avançada?!”, “e se ele não gostar?!”, “o que vai sair contando para os amigos?!”, “será que vai me ligar no dia seguinte?!”, “e se eu me apaixonar por ele?!”… argh!! Nessa hora lembrou de uma amiga que diz que vai conhecendo um cara aqui, outro ali e assim vai até topar com o seu príncipe (ou será sapo?). Isso acrescentou um sorriso ao seu rosto, que continuava estático em direção ao barbudinho. Ele achou que era para ele. Sorriu de volta e, à distância, sinalizou um brinde com sua long neck. Ela percebeu a bolha se dissipar, voltou a ouvir a voz estridente de Cyndi Lauper e brindou de volta.

Ele veio em sua direção. Brindaram de verdade, trocaram algumas informações – nomes, o que estão achando da festa, comentários sobre as pessoas – e logo se entenderam. A música está no final, sua cabeça formigando e seu pensamento leve. Agora estão dançando juntos o restinho da música. “ I want to be the one to walk in the sun / Oh girls…”. Seus olhos estão faiscando bem fechados junto aos dele.

* Texto de 2004 ou 2005, recuperado da caixinha

 

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