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uma caixinha de lembranças aberta em um blog de histórias: leia as curtas, os esquetes, de uma só vez ou o começo, o meio e o fim

Um dia sem literatura – de uma só vez julho 17, 2009

Filed under: De uma só vez — Denize Guedes @ 8:20 pm
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Nelson e Alaíde tinham um pacto. Quando um quisesse deixar o outro, escreveriam uma mensagem curta e grossa no balão de lousa que fica pendurado na parede da sala. Feito senha, até já tinham acordado qual seria: “Cuide-se” – nenhuma letra a mais, nenhuma letra a menos. Ficava livre apenas a pontuação. Ponto final para “é o fim, não há volta”, exclamação para “é o fim, não há volta mesmo” e reticências para “acho que é o fim”.

Esta última, a melhor das alternativas. Caso restasse um pouco de amor, claro. 

Não era bem o caso do que Nelson via diante de si naquela manhã. Caixa-alta e sublinhado, “CUIDE-SE.”, com ponto final no final. [Na verdade, era para ser uma reticências, mas ele deduziu que a autora resolvera apagar os últimos dois pontos com o dedo, dado o rastro de giz da abortada intenção de deixar portas abertas.] Um pouco fraco, foi com dificuldade que conseguiu andar de costas até tatear a poltrona, que fica de frente para esta tal parede, e sentar-se feito um objeto desprezado em queda-livre.

Passou um tempo com o olhar preso ao balão e massageando as têmporas de leve. Algo doía por dentro, insistia em lhe roubar o ar a todo instante e achou melhor não se mexer. Só se ergueu do meio dos destroços de seu tombo quando viu o buraco deixado pela coleção do Harry Potter na estante de livros. [Não que ele acompanhasse as aventuras do bruxo, não, tinha era aberto um puxadinho ao abrigá-las, com muita honra, entre um Neruda e um Cortázar – por pura concessão à Alaíde.]

Levantou num rompante em direção a esta tal estante e, como o viciado em busca da droga que traz um alívio momentâneo, derrubou, derrubou e derrubou, um a um, os talvez mais de cem livros que tanto lia, bebia e comia. Seu próximo impulso foi começar a rasgá-los todos, mas, como isso era cortar na própria carne fundo demais, resolveu pensar em uma solução alternativa. Enquanto não vinha nenhuma idéia melhor, ficou por ali, jogado ao chão, ele e os livros. A mente a pensar aleatória.

Alaíde era moça bonita, alegre e muito mais ligada às coisas da terra do que Nelson. Há muito mais de ano, era ela quem pagava o aluguel, a conta de luz, de gás, de telefone, de internet e de tudo mais que chegasse com código de barras. À Nelson, cabia as coisas miúdas, comprar o pão aqui, acertar o conserto do eletricista ali. [Talvez viesse dando certo por tanto tempo por um equilibrar o outro, feito dois lados da mesma moeda, mas, ao longo do caminho, ora dá cara ou coroa e um tem de ceder mais que o outro. Alaíde não queria mais.] É verdade que ele a amava e dava-lhe flores, mas já não bastava.

Nelson era rapaz sonhador, queria ser escritor e vivia muito mais ligado às coisas imaginárias do que Alaíde. Há muito mais de ano, era obcecado por criar heróis, heroínas, vilões, vilãs e tudo mais que coubesse em histórias. À Alaíde, sobravam as cartas de amor, a companhia do artista e a barriga vazia. [Talvez tivesse aguentado por mais algum tempo caso a revista de contos o pagasse alguma coisa, mas isso não acontecia nem ele detectava os alertas de que o deixaria caso não arrumasse um contracheque.] É verdade que ela o amava e dava-lhe força, mas já não suportava.

Mente um pouco mais em ordem, Nelson levantou noutro rompante. Tomou banho, fez a barba, vestiu o terno que encontrou ao lado do vestido de Alaíde, arriscou um nó na gravata, pôs o pé para fora de casa e entrou no mundo decidido a três coisas. A primeira, aceitar o emprego no cartório do primo que prosperava em burocracia, a segunda, recuperar Alaíde e Harry Potter, custasse o que custasse. A terceira, tomando emprestado um dos 12 passos dos alcoólicos anônimos, passar, “só por hoje”, um dia sem literatura.

[É claro que riu de si mesmo com a última resolução, por si só, uma fabulação, mas achou que era um bom escudo para encarar Alaíde com a esperança de tudo se ajeitar.]

 

One Response to “Um dia sem literatura – de uma só vez”

  1. I don’t disagree with this article.


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