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uma caixinha de lembranças aberta em um blog de histórias: leia as curtas, os esquetes, de uma só vez ou o começo, o meio e o fim

A menina que lia placas – Meio 2 julho 14, 2009

Filed under: Meio — Denize Guedes @ 12:33 am
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espelho_ok(leia o começo e o meio 1)

Entrou para atender e era a amiga com radar para hábitos irracionais. Ela havia encomendado uma cortina para o quarto do filho e queria confirmar a instalação.

– Está agendada para segunda-feira, às duas da tarde. Mandei um e-mail avisando. Pode deixar que vou estar junto para garantir que tudo corra bem – de pé, com a cabeça maquinando como perguntar de Bernardo sem parecer fora de propósito.

– Às duas, é? Ah… deixa eu ver se… – respondeu com a voz frouxa.

– Algum problema? Quer que eu mude? – buscando pistas.

– É que o Bernardo vem almoçar aqui, Clara. Talvez vocês se encontrem.

Determinados temas provocavam reações físicas em Clara. Bernardo era um deles. Foi com um leve tremor e o estômago começando a coçar quietinho que se sentou.

– É mesmo? Tudo bem, eu vou.

Clara passou o domingo em frente ao espelho, tentando decidir qual visual usaria no encontro com Bernardo. Continuava com as pernas fortes e bonitas, não tinha perdido o hábito de andar de bicicleta, mas, de modo geral, havia engordado um pouco e a pele estava mais elástica. Tentava amenizar com cremes, uma boa alimentação e exercícios regulares. Acabou por decidir repetir o casaco violeta de veludo cotelê, sabia que ficava bem com ele, combinado com uma blusinha branca e a bermuda cinza justa na medida nos quadris. Também sabia que os quadris continuavam sendo um forte seu. Completaria com o sapato alto bicolor – para ressaltar a panturrilha.

É verdade que teve ímpetos de vasculhar a rua e procurar placas para ler. Queria saber se deveria mesmo provocar este encontro, se valeria a pena, se ele ainda a acharia bonita. Mas se conteve, não queria provar novamente da sensação de deixar a vida ser decidida por coisas aleatórias e sem sentido sobrenatural algum, como chegou a concluir com os próprios botões depois da relação nunca engatada com Bernardo.

Eles estiveram juntos por quase seis meses. Clara, com sua mania de entender por conta o mundo ao seu redor nunca o perguntou o que eram ou poderiam ser. Apenas ia vivendo os dias a seu lado, feliz por ser sua menina. Ele era encorpado, pele clara e macia, cabelos lisos feito de índio, olhos castanhos guardados como jóias e protegidos por pestanas grossas. Era boa a sensação daqueles cílios em seu rosto quando pertinho e isso era o que bastava para Clara. Uma noite, contraídos um no outro sobre a cama de solteiro, Bernardo quis saber. Sem nenhuma placa por perto, sem o Aurélio para abrir a esmo, sem um conjunto de parágrafos, sem nada apontando em sua direção, não disse nada. Ficou silente, como que adormecida, aninhada no colo nu daquele que sonhava a seu lado para sempre.

Quando chegou ao prédio da amiga no outro dia, apenas uma pontinha de suor no centro das costas, escondida pelo casaco, denunciava o nervosismo. Acompanhada do rapaz que faria a instalação, foi autorizada a subir. Não sabia mais qual era o carro de Bernardo e, então, nem pôde investigar na rua se ele já havia chegado.

Mas havia.

Encontraram-se na sala, na presença da amiga, do marido da amiga e do filho da amiga. Cumprimentaram-se feito meros conhecidos e foram cuidar das suas coisas. Ela, em direção ao quarto da criança com o ajudante. Ele, em direção ao escritório do amigo e sócio. Estavam em cômodos separados, mas permaneciam juntos, como que sentindo a pulsação alterada um do outro e a respiração mais frequente. Aquela família – talvez com exceção da criança – sabia da importância daquilo tudo e resolveu ajudar os dois, saindo todos com o cachorro vira-lata para passear. Estavam de férias.

Bernardo foi até Clara.

Continua

(a imagem é deste pessoal aqui)

_____

(leia o fim)

 

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