tiny_little_box

uma caixinha de lembranças aberta em um blog de histórias: leia as curtas, os esquetes, de uma só vez ou o começo, o meio e o fim

A menina que lia placas – Meio 1 julho 12, 2009

Filed under: Meio — Denize Guedes @ 11:58 pm
Tags: , , , , , ,

rain_drops(leia o começo)

Do lado de fora, o tempo havia fechado e as primeiras gotas de chuva caíam sobre o vidro da entrada da loja de cortinas e almofadas. O estabelecimento ficava em uma rua pacata de vila, luxo para uma São Paulo que não para, e tinha conquistado boa clientela. Diplomatas, expatriados de cargos elevados, filhinhos de papai, descoladas recém-casadas, todos tapavam suas janelas e amorteciam seus atos de sentar com as cortinas e almofadas de bom gosto de Clara.

Naquele dia, porém, não havia movimento. Era sábado de feriado emendado, ela já havia enviado os e-mails dos últimos orçamentos solicitados, também já havia agendado as próximas instalações e queria fechar a loja, ir para casa almoçar. Só não podia: para variar, tinha esquecido o guarda-chuva em algum lugar obscuro. “Esse deve ser o utensílio que mais se esquece ou se perde na história de toda a humanidade desde que inventaram o guarda-chuva”, pensava sentada à mesa, mão direita apoiando o queixo, a outra tamborilando só para ter o que fazer.

Como de hábito, comia em casa todos os dias, ou quase. Ficava bem ali a três quarteirões. Ia e voltava a pé. O cheiro do ar úmido começava a subir, os pingos ganhavam peso e o barulho aumentava. Muito pouco podiam fazer aqueles que não queriam se molhar. Havia algum tempo ela estava ali, a mente a puxar coisas do passado.

Já não era assim tão menina, o entorno dos olhos e a pele um pouco menos firme estavam de acordo com os seus 33 anos por completar dali a dois meses. A chuva e o movimento também estavam de acordo com o que ia por dentro de Clara. Vivia um dia triste. Aliás, o sorriso andava mesmo lhe escapando desde que soubera do casamento de Bernardo. A notícia havia chegado por uma amiga em comum que reencontrara semanas atrás. Era a mesma que, certa vez, a repreendera por gostar de ler placas.

Bateu as mãos sobre a mesa, levantou e caminhou até a porta. Queria comprar um guarda-chuva do primeiro vendedor de ocasião que passasse. Mas não havia sinal de nenhum e resolveu ficar ali observando a rua.

A leitura de placas vinha lá da quinta série, por conta de um trabalho também de uma professora de Português. A tarefa era encontrar erros. Vistas à espreita, gramática e ortografia na ponta da língua, Clara saiu desbravando a avenida principal do bairro da casa de seus pais até topar com uma “não a vagas”, outra “chaveiro: troca de cegredo” e, ainda, “voti na oposição”. Dever feito, voltou para casa, jogou-se na cama em seu quarto e teve o pensamento simples de que placas trazem mensagens – melhor ainda se escritas direito.

Olhando a inclinação dos pingos, pensou que, se gostasse de fumar, aquela seria uma boa hora para acender um cigarro. Conformou-se com o chiclete que encontrou no bolso de seu casado violeta de veludo cotelê. Cruzou os braços e continuou por ali.

A primeira vez mesmo que leu uma placas do jeito que leu até Bernardo – sim, porque depois dele, nunca mais – foi quando era apaixonada por João. Isso ainda no colégio. João era um moço alto, cabelo escuro ondulado e lábios vermelhos. Desejava tanto estar com ele, mas não passava da melhor amiga. Um dia, quando mal conseguia andar direito na bicicleta, tamanha a quantidade de lágrimas que nasciam de seus olhos, encostou na guia e tirou da mochila a caixinha que havia preparado para João havia semanas. Afastou as coisas miúdas que sabia de que ele gostava, como figurinhas para o álbum da Copa daquele ano e um livrinho do Corinthians, para reler no fundo em canetinha vermelha: “Eu te amo”.

A Copa já estava por acabar e ela andando com aquele peso para cima e para baixo. Não achava justo! Então, teve a claríssima idéia de voltar para casa atenta às placas do caminho. Queria encontrar uma que respondesse de forma objetiva se ela deveria ou não se declarar a João. Resolveu que valia de tudo, de outdoor, passando por placas de carro, até as boas e velhas fachadas de comércio.

– Quase entrei com a bicicleta na traseira de um ônibus quando vi, uns cinco minutos depois, em caixa alta, vermelho e tudo: SIM Dograria. – olhos arregalados, os segundos necessários de silêncio para acomodar a informação. – Olga, veja se Sim é lá nome de farmácia! Não é. Mas estava lá, eu vi, ninguém me contou.

Dia seguinte, caixinha em punho, ruga no centro da testa, falou tudo para João. Recebeu em troca a alegria do moço pelos presentinhos, um beijo na testa e um abraço mais demorado. Ele gostava de outra. No fundo, Clara sabia, mas voltou satisfeita por ter confiado na placa. Algumas pessoas faziam bem-me-quer-mal-me-quer, outras tiravam tarô, outras liam mapa astral, outras liam mãos, outras nem nada faziam.

– Eu leio placas, não há nada de superstição nisso.

Era, talvez, a sua forma de organizar as mensagens enviadas distraidamente pelo mundo.

O telefone tocou.

Continua

(a imagem é deste moço aqui)

______

(leia o meio 2 e o fim)

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s