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uma caixinha de lembranças aberta em um blog de histórias: leia as curtas, os esquetes, de uma só vez ou o começo, o meio e o fim

Sobre sangue, veias e aldeias – Começo julho 7, 2009

Filed under: Começo — Denize Guedes @ 12:29 pm
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C.P. estava preocupado e entrou no bar daquele hotel de Brasília decidido a apenas consumir um suco e um sanduíche leve. Era quase meia-noite, não havia jantado, mas também não ousava pensar em deitar com a barriga cheia.

Percorria o salão apenas ocupado em garantir que todas as suas forças o acompanhassem amanhã cedo na audiência. O que não estava sendo um acerto fácil: elas barganhavam um descanso desde o elevador, logo após o telefonema de duas horas com a advogada. E C.P. não parecia dar o menor sinal de trégua.

Nem se deu conta da mesa que escolheu. Sentou lá e esperou ser atendido, enquanto concluía que um desarranjo, ou pesadelo, ou coisa parecida provocada por um estômago em trabalho pesado quando já sonolento, era tudo o que menos precisava naquela altura da vida. Também não se deu conta da presença do barman.

– O senhor gostaria de… C.P.? Mas veja só se não é o senhor? – disse Pereira, sorriso aberto, estalando o cardápio sobre a mão esquerda pela surpresa ao final do turno.

– …?! – naquela fração de segundos que levamos para vasculhar os nossos arquivos de rostos conhecidos, mas nem sempre vistos. – Pereira! Que alegria, bom te ver, rapaz, bom te ver – já de pé, dando uns tapinhas nas costas de Pereira com a mão esquerda e o cumprimentando com a direita. – Como andam as coisas por aqui? Que uniforme diferente é esse?

– Viu só, reparou, C.P.? Pois participei de uma seleção, foi logo depois de o senhor ir embora do hotel, e virei o barman da casa. Dá para acreditar? – braço cruzado, lábios contraídos e cabeça balançando em afirmação.

– Você está chique, hein, Pereira? Parabéns! – mais tapinhas. – Que privilégio o meu voltar aqui e ser atendido pelo barman da casa… Quer dizer que deixou para lá aquela bobagem de achar que não era capaz e tal? – sentando-se e tirando a caixa de cigarros do bolso da camisa.

– Nem tanto, mas vou lhe dizer que todos os dias eu lembro daquilo que o senhor me falou. Como é? “Nós temos 50% de chance de conquistar qualquer coisa nesta vida, mas, se nem tentamos, só vamos ficar na estaca zero” – em tom de aluno aplicado. – Um dia, amanheci com mais coragem, agarrei esse pensamento e falei para o gerente do hotel que queria esta vaga. Foi assim.

Um silêncio se fez. E uma lágrima aproveitou para querer cair pelo rosto de C.P, mas ele a conteve acendendo o cigarro e dando uma coçadinha no canto do olho. Ele era homem de RH e, nos últimos tempos, andava susceptível a se emocionar com histórias de êxito profissional. Ainda mais se havia contribuído de alguma forma.

– Olha, vou preparar aquela caipirinha que o senhor gosta, sabe aquela? Trago em um minuto! – saindo sem dar brecha para contestação, afinal, Pereira não recordava de ter servido outra coisa que não caipirinha para C.P. E não parou para pensar que os tempos mudam vez por outra.

Seu nome era Carlos Paulo, C.P. para encurtar e por charme. Era como era chamado toda a vida, desde pequeno. Sua mãe foi quem começou, havia outras pessoas na família com nome composto e era hábito chamar pelas iniciais. Levou a alcunha para o colégio, depois para a faculdade, depois para o trabalho e por onde quer que andasse depois. Em 65 anos de vida, era assim que o chamavam há pelo menos 60. Quando chegou o tempo dos computadores não foi diferente e seu endereço eletrônico também o nomeava cp@olugarondeestivesse.

O caso é que C.P. andava chateado com o último lugar onde havia trabalhado. Não entendia como estava sendo processado por um ex-funcionário por assédio moral. Justo ele, que tinha passado a vida incentivando o corpo de empregados a se qualificarem, a subirem de posto por mérito, a buscarem apoio na empresa ou instituição que trabalhassem… “Teria o cara se ofendido porque eu o ofereci a chance de estudar inglês? Ou porque ele podia fazer uma pós sem pagar?”, pensava estupefato.

Foi bem nesta hora que uma caipirinha se materializou à sua frente.

– Está no capricho, C.P.! Prove só! – disse Pereira.

Rindo sozinho de seus propósitos gastronômicos iniciais ao entrar no bar, C.P. afastou as conjecturas em relação ao ex-empregado, apagou o cigarro, deu uma mexidinha na bebida com o canudo e sorveu um belo gole.

– Sensacional, Pereira, sensacional! Está divina. Como sempre.

Feliz com o reencontro, o barman apenas lamentou ter de ir embora. É que havia chegado o fim de seu turno, morava em uma cidade-satélite (cujo nome foi lembrado por C.P. para lisonja de Pereira) e dependia da condução que passava em 15 minutos. Mas garantiu ter deixado grandes recomendações para o colega da madrugada o servir como rei.

– Vá em paz, Pereira, não se preocupe. Vou ficar por aqui mais alguns dias e ainda nos encontraremos – despedindo-se com um abraço e buscando guardar aquele rosto para os momentos em que precisasse de conforto.

Voltou à caipirinha e acendeu um novo cigarro. Em paz com as suas forças, que finalmente apreciavam um momento de relaxamento, pôde, então, perceber que havia sentado na sua velha e boa mesa de sempre.

Continua
______

(leia o meio e o fim)

 

13 Responses to “Sobre sangue, veias e aldeias – Começo”

  1. Carlos Paulo Says:

    Lindo, Denizinha. Você prestou uma boa atenção em nossa conversa no Restaurante Consulado Mineiro juntos com nossos caros amigos e reproduziu muito bem aqui.
    Vamos aguardar a continuação….
    C.P.

  2. Edu Says:

    Denizinha, uma delicia de texto………
    bjsmis
    Edu

  3. Auster Erse Says:

    É a cara do Carlão.
    Bjsssssss.
    Auster

  4. Waltinho Says:

    Dê, vou ser seu concorrente nas longas lembranças da equipe de BSB. Bjs, Waltinho

  5. Katia Martins Says:

    Dede..
    Me senti em um desses botecos em Brasília, fim de expediente, com o próprio C.P. narrando o fato.
    Aliás, esse C.P. sempre com histórias de emocionar, né! E neste caso, por seu intermédio.
    Adorei.
    Beijocas de saudades.
    K.M. rsrs

  6. Jaqueline Says:

    Nossaaaaaaaaaaaaaaa…. Várias surpresas ao mesmo tempo: ver o lindo blog da Dê (desculpa, cheguei atrasa…), reviver memórias vivas e… que história é essa de processo, CP?!?!?!

    Beijão para vcs, agora desde algns blocos de distância (e já não mais de milhares de quilômetros!).

    Jaque

  7. geo Says:

    Uma dúvida: CP, Carlos Paulo … é o Carlão? Alguns detalhes me chamaram a atenção. Acendeu um cigarro, pediu uma caipirinha, puxou uma boa conversa? é o Carlão, não tenho mais dúvida. Depois dos cinqüenta ( com trema e tudo, se não fica cinqenta) ficamos emotivos como que (como que?), sei lá, ficamos sempre alegres com o crescimento do que ajudamos a construir, como o Pereira por exemplo, apoiado pela sabedoria do CP, Carlos Paulo e agora sem nenhuma dúvida, Carlão. E o texto hein, que tamanho. Denizinha em ação, preparem a caipirinha, é muita emoção. Beijos

    • denizeg Says:

      Que legal, que legal, Geo…
      Espero que o texto siga a contento das memórias e das emoções de todos nós.
      Beijos e valeu,

  8. Vitor Says:

    Já escrevi umas duas dezenas de versões para esta msg! Tudo de matar de vergonha! Digo simplesmente que me emocionei e fiquei com muitas saudades de um certo tempo……

    Beijos

    Vitor


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