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uma caixinha de lembranças aberta em um blog de histórias: leia as curtas, os esquetes, de uma só vez ou o começo, o meio e o fim

Paddy’s little box, ou Carrego-te comigo – Meio junho 29, 2009

Filed under: Meio — Denize Guedes @ 1:17 am
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(leia o começo) Little did I know é daquelas expressões em inglês que não encontra paralelo preciso em português. Dá para dizer “eu pouco sabia” ou, melhor, “eu mal sabia”, mas não soa tão igual. Ela enfatiza algo do terreno do absolutamente desconhecido, do impossível de ser previsto, do totalmente inesperado. E, talvez, por ser menos usada em inglês, quando é, causa um impacto bem maior aos ouvidos de quem fala e de quem escuta.

Quando Patrick entrou naquele ônibuzinho, dando um Hello envergonhado e empurrando o mochilão com os pés, era exatamente isso que eu sabia do que estava por vir: little. Quieta, meio escondida pela chinesinha, devolvi o Olá e esfreguei os olhos para tentar enxergar além das faíscas. Não adiantou. Ele e Josh, seu amigo, sentaram bem na fileira ao lado da nossa.

Terminaram de se acomodar e Keith, através de seu fone à la Britney Speers, tratou de dar as boas-vindas. Soltou uma graça qualquer de que eles eram uns fucking americanos sortudos por terem sido resgatados a tempo para o passeio e que os trataria bem. Perguntou de onde eram nos EUA.

Eh-lé-bé-ma, man! – disse Patrick, com o sotaque típico do Sul dos Estados Unidos para quem quer dizer Alabama.

O paddywagon seguiu seu curso – ora ao som de cantores irlandeses melancólicos, ora de música folclórica da Irlanda, ora de explicações mitológicas dadas por Keith. Vez por outra, eu olhava para o lado e checava se aquele moço continuava brilhando. Continuava. Além de ser bonito, eu não fazia ideia do porquê o procurava (afinal, o australiano e o inglês eram até mais bonitos e eu não era atraída a olhar para a cara deles o tempo inteiro). Antes que pudesse buscar mais explicações, Keith roubou nossa atenção para contar uma história de gigantes.

A Irlanda, assim como a Escócia, é um país fortemente influenciado por lendas de fadas e gigantes. Há centenas de contos envolvendo essas duas figuras e, um deles, era a que estávamos por conhecer. Conta-se que um gigante irlandês, apaixonado por uma gigante escocesa, certa vez, pegou quatro pedras muito grandes e as organizou em uma escultura como prova de seu amor.

– É algo impossível de um humano fazer, vou mostrar para vocês. Desçam todos do ônibus e venham conhecer – disse Keith, estacionando em algum lugar perto de Drogheda, ao Norte.

Depois da chinesinha passar, fiquei cara a cara com Patrick pela primeira vez. Lembro de ter reparado em seus olhos bem pequenininhos. Daqueles fechadinhos na ponta, como se estivessem sorrindo ao contrário. Eram de um verde-escuro ensolarado.

Ele fez um gesto para ir na frente. Abri um sorriso e passei – desejando que tivesse reparado algo em mim também. Nesta hora, com um pouco mais de força, uma nova pedra rolou lá do topo do meu totem abaixo-EUA e caiu no meio da minha cabeça, provocando uma ruga de estranhamento também no meio da minha testa.

Já em frente à escultura, Keith contou mais.

– Diz a lenda que, quem vem até aqui, atira uma pedra sobre ela e a pedra lá fica, esta pessoa vai encontrar o amor no prazo de um ano. Que tal? Vocês conhecem a maravilhosa Irlanda e, de quebra, ainda voltam com a certeza de um amor? Come on, achem pedras e atirem! – disse, ajudando a encontrar algumas pela grama.

Eu, que já era de acreditar em qualquer coisa mais mítica, não perdi tempo. Segurei a pedra que tinha ido parar lá ao lado do meu pé, não mirei muito ou me concentrei, apenas arremessei. Atirei com a confiança de quem sabia que aquela pedra pertencia ali em cima toda a vida. E ela pousou sobre a superfície da escultura, sem quicar, sem rolar, sem expulsar as demais ao redor…

Ninguém acreditou ou conseguiu repetir o feito. Quer dizer, a pedra do Patrick ficou, mas foi trazida de volta ao chão pela da australiana, que, quando lançada, ainda levou consigo a de um dos neozelandeses, a do inglês e a da espanhola. Uma pena.

Lamentei os quase futuros amores dos meus colegas de viagem e voltei feliz para o ônibus. Encontrei a minha vizinha de poltrona de pé no corredor. Perguntou se poderia ir sentada na janela até Belfast, a nossa próxima parada. Eu disse que tudo bem, sem problemas. E foi só depois, já sentada olhando para o corredor, que me dei conta do bom motivo para aceitar a troca de bom grado. Era o Patrick caminhando em direção ao seu lugar. A chinezinha não tinha como saber disso, claro, e insistiu em confirmar a troca.

Really? Not a problem? – explicando que queria aproveitar a vista, mas que sairia a qualquer momento caso eu quisesse.

Mas eu não quis.

Sabe a sensação dos pelinhos do braço sendo puxados pela tela ainda quente da TV depois que é desligada? Era tipo isso o que eu sentia sentada ali naquele corredor, como ímã sendo puxado.

A nossa primeira conversa foi involuntária, sobre uma palavra em inglês, desconhecida para mim até então, que estava escrita em uma folha de papel na viseira do motorista. Em letra de forma bem grande, dizia CUNT. E trazia uma flecha apontando para a imagem de um certo Oliver Cromwell – muito provavelmente um personagem da história irlandesa, o que se percebia pela ilustração antiga de livro de colégio.

– O que significa cunt? – perguntei sem imaginar que receberia um silêncio sepulcral de volta de pessoas que começaram a se entreolhar. – Ai… é uma palavra tão feia assim?… – já desconcertada.

Foi quando o Patrick tocou meu braço devagar, fez sinal de que queria cochichar algo em meu ouvido e pediu para eu chegar mais perto. Fiz exatamente o que me pediu, ele disse baixinho: “É um xingamento muito pesado, é das palavras da língua inglesa de maior tabu. Eu nem consigo repetir para você de tão pesada… Mas tem a ver com o órgão sexual feminino”. Tapei a boca com uma das mãos, fiz sinal de que havia entendido. E pensei que os americanos não eram de todo mal.

– É para você ver como gostamos do senhor Cromwell… – completou Keith lá da frente.

Mais tarde, já na capital da Irlanda do Norte, a terra onde o Titanic nasceu, tive a minha segunda conversa com ele. Foi na sala do albergue com o pessoal da excursão. Eu estava finalmente explicando o motivo do meu súbito ataque de riso no início da viagem e contei a história toda dos americanos viajarem travestidos de canadenses. Eles acharam divertido – ufa! – e eu não passei de louca. Na sequência, para surpresa do grupo, Patrick sacou da mochila um pin da maple leaf, símbolo nacional do Canadá: “Há!”. Tirou gargalhadas dos presentes.

Ficamos ali conversando de lado e bebendo cerveja. Percebi que o meu totem abaixo-EUA estava ficando mesmo bambo quando ele me perguntou se no Brasil se falava espanhol e eu nem o repreendi por isso. Na verade, culpei as duas latinhas que havia tomado até ali. Porém, marquei ponto para ele em seguida – por confessar que achava uma pena não saber outra língua que não a sua. Ele dizia coisas e eu repassava mentalmente o que vinha achando dele (tem presença de espírito, é divertido e cortês, não fala palavras feias, tem olhinhos pequenos que soltam faísca, sorriso certinho, cabelo desgrenhado, bochechas vermelhas…).

– Pessoal, quem está a fim aí de me acompanhar em uns pints na balada mais bacana da cidade? Vamos? – perguntou Keith, entrando na sala e interrompendo a minha lista.

Patrick olhou para mim e perguntou se eu iria. Eu disse que sim. Só foi o tempo de pegar o casaco e a bolsa para ganharmos a rua a pé rumo a um lugar chamado Fly (de mosca mesmo). O grupo andava entusiasmado e conversando alto. Eu e ele caminhávamos lado a lado, mas sem falar. Naquele momento, percebi que ainda não tinha tido a chance de perguntar seu nome.

– Como você se chama mesmo? – eu disse pulando à sua frente, andando de costas para rua, mas bem de frente para ele.

Patrick, you can call me Patrick – mãos no bolso, cabeça encaixada nos ombros levantados e sorrindo.

Mesmo ali, little did I know.

Continua
______

(leia o fim)

 

2 Responses to “Paddy’s little box, ou Carrego-te comigo – Meio”

  1. tio john Says:

    I love it, kept the good work // JR

  2. marileite Says:

    Tô curiosa! Mas já antevejo o que vai acontecer… Você é uma boa narradora, dá vários índices ao longo da história. Será que seus índices me enganam?
    beijão


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