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uma caixinha de lembranças aberta em um blog de histórias: leia as curtas, os esquetes, de uma só vez ou o começo, o meio e o fim

Conduzindo Alice junho 19, 2009

Filed under: De uma só vez — Denize Guedes @ 4:08 am
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Quando Alice entrou no táxi com a sua rosa vermelha importada da Colômbia, ele a cumprimentou com um sorriso gentil, explicou que o trânsito estava tão terrível quanto o de sexta-feira e tratou logo de voltar a conversar com a pessoa do outro lado da linha: “Fala, meu amor. Mas, você conseguiu fazer o depósito na conta dele?… Ah, entendi… entendi, amor meu… Tá bom, amor, logo mais você me explica. Um beijo. Tchau, querida”, tirando um daqueles celulares tipo baratinha do ouvido direito.

Confirmou o destino da corrida, se calou e ultrapassou um carreto que carregava um espelho grande debaixo do minhocão.

No banco traseiro, cuidando no colo do botão de flor que havia acabado de ganhar, ela não resitiu e comentou: “Bonito o jeito como o senhor estava falando…”. E ele: “Ah, pois é, tem de ser assim. Gosto de tratar bem a minha mulher, sabe?”.

Pelo retrovisor, ele leu o sorriso dela e continuou.  ”Mas, também, já estou no meu quinto casamento.”

– Quinto?!, disse Alice, tentando imaginar os encantos daquele Dom Juan de Marco dos volantes.

Estava claro para ela que o cara que agora esperava sua vez para subir a Consolação sabia Eros_e_Psique_by_godsuckscockstratar bem uma mulher. Tinha ouvido o seu lado da conversa e, se preciso fosse, testemunharia em juízo sobre o tom de voz de quem ama que ele dedicava à sua quinta esposa.

(Um tom ao mesmo tempo calmo e intenso, como uma fogueira que esquenta as mãos geladas devagar… como a sede que se sabe prestes a matar diante do copo cheio d’água… como o frio na barriga que só eu sabia em mim do encontro de agora há pouco…)

– Eu quero escrever um livro sobre isso, até porque, depois de cinco histórias, eu aprendi um bocado de coisas, disse buzinando para uma Besta e tirando Alice de seu devaneio de passageira com uma rosa na mão.

– Ah, é? E o que o senhor aprendeu? Será que tem, assim, uma lição principal?, apoiando o rosto sobre as mãos, depois de se inclinar para a poltrona do carona e de deixar a rosa um pouco de lado.

– Olha, tem um conjunto de coisas. Mas, se eu tivesse de escolher apenas uma, eu escolheria a máscara. ‘A Máscara’, inclusive, vai ser o título de um dos capítulos do meu livro.

– Como assim ‘A Máscara’?, já completamente abraçada ao banco.

Parado no corredor de ônibus da Rebouças, virou de lado e olhou diretamente nos olhos de Alice pela primeira vez: “É que no começo do relacionamento, no namoro ou início de casamento, as pessoas não chegam a mostrar quem são por completo. Usam tipo uma máscara de encantamento e saem por aí. Mas, mais cedo ou mais tarde, chega uma hora que aquilo começa a coçar de um tanto que não tem outra saída a não ser arrancar tudo, sabe? Agora, se o casal entende que são dois indivíduos ali, cada um com suas qualidades e seus defeitos, aquele velho papo furado todo, dois indivíduos completos, mas que resolveram estar juntos do jeito que são porque se gostam, aí, meio caminho está andado”.

Um cara meteu a mão na buzina, fez Alice olhar para trás e o motorista engatar a primeira aos solavancos.

Sentadinha direito de volta no banco traseiro, ela perguntou: “O senhor conhece o mito de Eros e Psiquê?”.

– Não. Do que fala?

– Exatamente do que o senhor acabou de me descrever. De descer ao inferno depois de dar de cara com a face nua do outro. Mas, de conseguir amá-lo mesmo assim. É bem bonito. Acho que cabe direitinho no seu seu livro, viu, seu… Como o senhor chama?

– Ronaldo.

– Então, seu Ronaldo. Procura lá no Google, vale a pena.

– Bacana, moça. Vou procurar, bom saber. Eros e Psiquê, né?… Ó, deu R$ 19,60, depois de encostar em frente à casa branca com uma árvore na calçada.

Entregando o dinheiro, Alice agradeceu a corrida, a conversa e falou para ele não deixar de escrever o livro.  Deu também a sua rosa vermelha colombiana: “Eu acabei de ganhar de um moço, mas fiquei com vontade de deixar com o senhor. Para o senhor entregar à sua mulher. Eu e esse moço, a gente ainda está se conhecendo”.

– É mesmo? Tem certeza?… Ah, então tá bom, vai. E, olha, uma das outras coisas importantes é não deixar a relação cair na rotina. Então, ela vai gostar dessa rosa assim grandona. Obrigado, viu, tudo de bom.

Alice saiu do carro, conferiu o celular e leu a mensagem que havia chegado pouco antes. “O sorriso da senhorita não me sai da cabeça.” Ao lado da árvore, é claro que sorriu e procurou responder à altura. Depois, colocou o fone do iPod para sair cantarolando a música que quis ouvir. Uma que diz bem assim: I like your hand on my shoulder. I like the way you smile, the way you smile, oh-ohoo. We both think the weather is getting better. So let’s get lucky, let’s go all the way

(a imagem é daqui)

 

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