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uma caixinha de lembranças aberta em um blog de histórias: leia as curtas, os esquetes, de uma só vez ou o começo, o meio e o fim

Velhos textos da caixinha 2 junho 12, 2009

Filed under: De uma só vez — Denize Guedes @ 9:40 pm
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Cavocando, encontrei mais outros dois textinhos aqui.

O primeiro é o primeiro de uma série que nunca existiu. Um certo moço de quem eu gostei muito nessa vida, uma vez, me propôs escrever textos para o que a gente batizou na época de coluna “Além da auto-ajuda”. Fiz este aqui, mas logo a nossa história acabou, fiquei ocupada procurando ajuda para juntar cacos e deixei a coisa de lado. Foi bom relê-lo hoje.

O outro foi encomenda do meu pai, que queria mandar para a lista de contatos do seu e-mail (ele é mais internético que eu) algo que explicasse um livretinho que havia achado em um domingo de faxina no armário. Saiu isto.

Ah, também não mexi no Português. Lembremos da trema, minha gente.

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EI, NINGUÉM VAI TE SALVAR

(…)
“Olha, não sei onde me fiz entender mal”, disse já exausta da discussão.
“Eu não espero ter você. Não é isso”, retrucou encabulado.
“Ah, não?… O quê, então?”
“Mais que isso… Acho que você pode ser a minha salvação.”
(…)

Esse papo não é apenas uma ilustração. Aconteceu. Entre duas pessoas grandes, de seus vinte e poucos anos. Como terminou? Eles nunca mais se falaram e continuaram tocando suas vidas. Mas guardam uma coisa, dita ali, que reverbera até hoje em cada um. “A felicidade está dentro de você e nada exterior pode transformar algo que é responsabilidade só sua.” A frase era da terapeuta dela – dias antes.

super-her%C3%B3iHá pessoas que passam o tempo na tocaia de algo ou alguém que venha dar sentido às suas vidas. Como à espera de um milagre, acreditam que aquilo que é delas está realmente guardado e que o mundo enquanto gira vai se encarregar de mostrar o caminho. Mas como isso não acontece, lamentam-lamentam-lamentam a vida que levam. Sem notar que aquilo que esperam vir amanhã, depende tão somente do que fazem hoje. O moço da conversa era assim. E você?

O problema todo está no sentido da flechinha que corre entre a gente e o mundo. O-movimento-para-a-realização-tem-de-partir-do-interior-do-sujeito-para-o-exterior->. <-E-não-o-contrário. Não será o cobiçado cargo de diretoria, o namorado sarado ou a melhor terapia oriental da última semana que vão tornar seus dias mais ensolarados em questão de horas. A felicidade é responsabilidade – intransferível e diária – de quem quer e decide – genuinamente – ser feliz.

Remedando as prateleiras da seção de auto-ajuda, o salto para o sucesso se dá com o autoconhecimento. Identificar virtudes e também fraquezas. Compreender desejos e sentimentos. Buscar transformá-los em vontades e depois em projetos de vida. Contar com a conquista e com a derrota de quem sabe que nada é alegria o tempo inteiro. Nem tristeza. Claro que esse não é um processo instantâneo. Requer tempo e, mais que tudo, vontade de pensar diferente. Ter ajuda profissional é um bom começo.

O negócio é você deixar a ficha cair e ir aprendendo devagar a observar as coisas pelo novo ângulo. Passar a interferir no estado de coisas da sua vida. Importar-se menos com o que os outros acham e vasculhar dentro de você aquilo que lhe traz prazer. Essas coisas é que geram motivação e dão movimento ao dia-a-dia. Cuidar de velhinhos, abraçar uma causa coletiva, estudar filosofia, viajar para o Butão, buscar um alimento espiritual, passear os cachorros do vizinho (com o vizinho), sei lá.

Para que esperar de alguém ou do mundo encontrar o pote de ouro no fim do arco-íris? Se ele já está em você. O Budismo dá essa dica faz tempo. Vários filósofos, como Schopenhauer, também. Avesso ao convívio social, ele acreditava que “quanto mais se tem dentro de si, menos se quer dos outros”. Auto-suficiência de lado, o outro, daí, vem por conseqüência. Não como tábua de salvação. Tipo um bônus… para gastar com a partilha e melhorias daquilo que já está bom.

(a imagem é daqui)

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UM BREVE CONTO DO AERUS

Naquele 1982, eu contava apenas três anos de idade e era uma criança bastante normal. Meu único porém era a grande falta que sentia do meu pai quando ele ia trabalhar. Não era para menos, comissário de bordo da Varig, ele passava dias e dias viajando. Ao todo, foram mais de 35 anos de dedicação à companhia, entre radiotelegrafista, comissário de bordo e chefe de equipe.

Minha mãe lembra que eu ficava muito feliz – eufórica a ponto de perder o ar – quando ele voltava de uma viagem. A primeira coisa era matar a saudade. Depois, abrir brinquedinhos, vestidinhos e chapeuzinhos que ele sempre me trazia de todas as partes do mundo. Em uma dessas idas e vindas, em 1982, meu pai conta que trouxe uma coisa diferente.

Era um livretinho em forma de história em quadrinhos – distribuído na Varig mesmo. Segundo ele, era para eu ir me familiarizando com a leitura. Falava de um tal de Aerus, um fundo de pensão que, também segundo meu pai, iria garantir tranqüilidade à nossa família no futuro. Mas eu era muito pequena para saber o que era futuro e fiquei contente só em folhear – e rabiscar – o livreto.

Quinze anos depois, uma coisa provável e outra improvável aconteceram. A primeira foi eu ter tomado real gosto pelas letras e, como conseqüência, ter me tornado uma jornalista. A segunda foi o futuro da nossa família não ter se transformado exatamente em algo tranqüilo… Isso sem nem falar que a estrela brasileira já não ilumina o céu azul do Brasil como em 1982.

Ao contrário do que aquelas páginas coloridas davam como certo, o Aerus não tem mais sido capaz de trazer bem-estar e condições de segurança para o meu pai nem para os milhares de profissionais – e dependentes – que confiaram nos personagens simpáticos que apresentavam as vantagens de se fazer parte desse instituto de (in)seguridade social.

Desde 12 de abril de 2006, 8.285 aeroviários e aeronautas vêm sendo privados de viver dignamente os melhores momentos de sua vida – ora, não tem sido cada vez mais conhecida como ‘melhor idade’ a fase da aposentadoria? O fato é que a real história, escrita dia-a-dia fora dos quadrinhos, é de privação de um benefício que lhes é de direito – depois de suor e economia ao longo de anos de trabalho.

Apenas uma coisa continua verdadeira no livreto: “O AERUS SOMOS TODOS NÓS”, trazida na contra-capa. De fato, o esforço de mobilização em prol de contribuições naquele tempo chega a ser menor do que o visto hoje em busca de se fazer valer o direito da pensão.

Em vigílias pelos aeroportos do País, encontros com o ministro da Previdência ou em sessões no Congresso Nacional, meu pai e seus colegas não esmorecem. E talvez essa, infelizmente, tenha sido a melhor lição aprendida por mim.

 

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