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uma caixinha de lembranças aberta em um blog de histórias: leia as curtas, os esquetes, de uma só vez ou o começo, o meio e o fim

Diálogo imaginário – Curta dezembro 12, 2010

Filed under: Curta — Denize Guedes @ 3:23 pm
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- Oi. Eu tava ali do outro lado e te vi, surpreendendo-a na seção dos mais vendidos.
- Oi… nossa.
- Tudo bem?, ele enfiando as mãos em cada bolso da calça jeans desbotada.
- Tudo. E com você?, segurando o livro cuja orelha final estava lendo com a mão esquerda e afastando o cabelo do rosto com as costas do dedo indicador da direita.
- Tudo, tudo. Ei, o que você estava lendo?
- Ah, isso, mostrando a capa.
- Ah, eu li, é legal. Você vai levar?
- Vou, de presente. Eu também já li, gostei muito.
- É bom, né? Sensacional. Eu vi você lendo a orelha e achei que estava tomando a decisão de levar.
- Você estava me espionando?, rindo e, com isso, colocando de volta o cacho à frente do olho direito, que logo afastou novamente.
- Boa. Não, só observando e tirando conclusões, acho.
- Hum… você lembra o que está escrito na orelha do livro?
- Não.
- Então, não poderia chegar à conclusão certa, procurando o caixa mais próximo, como quem precisa ir.
- Como assim?, com rugas na testa branquinha., ainda com as mãos no bolso.
- Deixa pra lá.
- É?… Ei, quer tomar um café?, olhando para o café algumas seções para baixo de onde estavam.
- Olha, eu quis tomar um café com você alguns anos atrás. Você não. Agora acho que não dá mais.
- Seu olho tá bonito. Tem alguma coisa diferente. O queé?, fingindo não ter ouvido a resposta.
- Você sempre gostou dos meus olhos, né?, olhando bem nos dele. A sobrancelha?
- Hum, isso. Você está bonita, não conseguindo manter o contato visual por mais do que um par de segundos.
- Obrigada. Você também.
- Valeu. E aí? Vamos tomar um café?
- Não. Tarde demais.
- Você tem algum compromisso agora?
- Não, estou livre.
- Então por que não?
- Eu já disse. É tarde demais.
- Mas são só quatro da tarde.
- Então, tarde. Eu vou indo. Foi bom te ver.
- Beleza. Legal te ver também.
- Thau. E o que gostaria de ter te dito quando eu quis tomar um café era que eu ainda era louca por você, desesperada, completamente e perdidamente apaixonada. Que queria ficar com você.
- Ai, Deus… eu sei…
- E por isso não marcou, né?
- É, acho que sim, depois de puxar o ar para dizer algo em sua defesa sem consegir.
- Caramba, eu conseguir conjugar os verbos no passado, olhando para cima com um sorriso e um alívio.
- No passado?, novas rugas na testa.
- É, no passado… Foi bom te ver. Tchau.
- Tchau, depois de puxar o ar para dizer algo para ela ficar mais sem conseguir.

Ela foi caminhando rumo ao caixa. No meio do caminho olhou para trás para dizer alguma coisa.

- Ei. Não precisa esconder que está casado. Pode tirar a mão esquerda do bolso. E o que tem na orelha deste livro aqui, sobre  autor, é a mesma fórmulinha que você usou no seu. Só isso.
- Eu sei.
- É. Eu sei que você sabe. Só te ajudei a dizer. 

Ela pagou e foi embora sem olhar para trás. Ele não tirou a mão do bolso. Ela gostou de perceber que não devaneava de coração com a ideia de ele vir atrás dela, puxá-la pelo braço, meter-lhe a língua na sua boca e tirar seus pés do chão. Ele devaneou com a ideia de ir atrás dela, puxá-la pelo braço, meter-lhe a língua na sua boca e puxá-la para mais perto dele. Mas não fez nada a respeito. Apeas tomar um café.

 

One Response to “Diálogo imaginário – Curta”

  1. Tatiana Bielefeld Diz:

    ai, é tão bom falar as coisas no passado, as vezes.
    bjs,
    ps – to sempre por aqui. adoro seus texto.
    Tati bielefeld


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