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uma caixinha de lembranças aberta em um blog de histórias: leia as curtas, os esquetes, de uma só vez ou o começo, o meio e o fim

Aos 30 anos, dei reset na minha vida* – De uma só vez agosto 16, 2010

Filed under: De uma só vez — Denize Guedes @ 3:07 am
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Aos 06 anos, brincava de Mulher Maravilha, escrevia bilhetinhos para as bonecas (respondia-os de volta) e tinha medo de dormir no escuro. Uma lampadinha em forma de Barney fazia companhia madrugada adentro. Às vezes, acordava e via sombras de monstros narigudos na parede. Corria para o quarto do pá e da mã, encontrava um lugar seguro no meio deles e dormia ouvindo roncos.

Aos 10 anos, fazia trabalhos da escola na máquina de escrever que o pá e a mã deram. Aprendia onde cada letra morava e treinava os dedos a baterem nas portas certas – sob o risco do Liquid Paper ter de entrar em ação caso o ‘esse’ saísse no lugar do ‘de’, um exemplo. Assistia aos filmes do Super Homem e gostava das cenas dele no “Planeta Diário” com a Lois Lane.

Aos 12 anos, à noite, sentava de índio no pé da tv, não mexia um músculo sequer, vidrada que ficava com os episódios de “Anos Rebeldes”. Teve um dia, de supermercado de mês no Carrefour, que saltitava feito smurfete na fila do caixa, só porque o pá deixou comprar o livro de “Anos Rebeldes”. Começou a ser lido no banco traseiro do Verona de volta para casa e não durou mais que um par de dias.

Aos 19 anos, não era capaz de escolher uma profissão para inscrição na FUVEST. Pendia para Artes Cênicas, mas sabia que o pá e a mã morreriam do coração se aparecesse com essa notícia. A coisa foi tão complicada que resolveram pagar sessões de orientação vocacional. Resultado: papel assinado por duas psicólogas apontando, em primeiro, Jornalismo e, depois, Tradução e Intérprete.

Aos 22 anos, primeiros seis meses, estava dentro de uma redação de jornal diário. Dando duro, mas feliz que só. Tinha encontrado para quê servia nesta vida, mas era novinha demais para entender. “Pá, hoje fui pra rua!”, ao telefone. “Neguinha, você foi mandada embora?!”.  “Não! Fui cobrir a greve de perueiros que está rolando”, ria. “Não é perigoso?”. “NÃO, é sensacional, acabei de escrever.”

Aos 22 anos, últimos seis meses, a preocupação era sempre a primeira frase do lide, laçar o leitor para ele correr os olhos até o último ponto final da matéria. Às vezes, a inspiração vinha de música. “A vida de dona Antônia segue seca (Segue Seco, Marisa Monte)”. “Todo dia o casal Nakamoto faz tudo sempre igual (Cotidiano, Chico Buarque)”. Às vezes, de algo que talvez seja o inconsciente coletivo.

Aos 23 anos, mudava para o Planalto Central para ganhar quatro vezes mais que o salário brazuca de Lois Lane e trabalhar mais regrado como assessora de imprensa. Também para ajudar a construir um novo governo. Na hora de colocar a senha de login no computador e do Outlook, não levou meia fração de segundo para decidir: REDAÇÃO. Era para lembrar de onde tinha saído e para onde deveria retornar.

Aos 27 anos, estava mais do que habituada ao lado assessoria do balcão do jornalismo. Atuava confortavelmente nesse papel e achava que tinha perdido a mão de repórter para sempre, medo. Até fazia pós em Assessoria em Comunicação Pública. Só que, cada dia, ficava mais penoso digitar REDAÇÃO para logar e ler e-mails. Encarar a promessa não cumprida era não poder desviar do olhar da covardia.

Aos 29 anos, dava fim a seu faroeste caboclo e festas estranhas com gente esquisita. Adotava um cachorro para chamar de Dog e dava o primeiro passo vacilante rumo à redação – ainda com medo do escuro. Voltava à cidade grande cheia de grande imprensa, mas para trabalhar, opa, em uma assessoria. Bom, ao menos a sensação era de maior proximidade e menos covardia.

Aos 30 anos, primeiros seis meses, em aulas à noite e leituras no fim de semana, com intervalos só para xixi e cocô do Dog, (re)descobria o jornalismo literário. Descobrir o jeito de escrever e a sensibilidade de Eliane Brum – repórter experiente das histórias miúdas, das histórias de gente comum, das histórias capturadas no espanto da rua – foi um arrebatamento só. Já um pouco mais firminha, ainda ganhando a vida na assessoria, resolvia que era hora de tentar, apesar do medo. E foi parar em Piauí.

Aos 30 anos, últimos seis meses, tomava um revés da vida: “Ei, a água tá batendo na bunda, vai nadar? Vai encarar ou se enfiar no meio da cama do pá e da mã com esse ‘tamanhão’ todo?  Deu pau, mete o dedo no reset!”. Era a assessoria acenando com um puta game over. Só assim, também, para nadar, encarar, resetar – rolou dor de barriga, vontade de vomitar e esperança de ver a alvorada depois da noite escura.  Foi punk… Bela manhã, a firmeza finalmente chegou, medo virou monstro narigudo. E o lembrete virou de verdade.

<<  A senha continua a mesma. Mais fácil, saltitante e leve de digitar. Coisas de habitat natural >>

_____________

* O título é uma citação a um álbum da cantora Lulina – só que, no caso dela, o reset foi aos 28.

 

6 Responses to “Aos 30 anos, dei reset na minha vida* – De uma só vez”

  1. Carlos Paulo Diz:

    Olá, minha cara Denizinha (ou já será minha cara Denize) .
    Ainda bem que você não se enfiou de novo no meio da cama do pá e
    da mã e sim “”meteu o dedo no reset”" .
    Fico contente com a sua decisão e admiro a sua “coragem auto-biográfica” descrita aqui.
    Beijos do Carlão do Clube dos Cachorrões

  2. Carlos Paulo Diz:

    Denise. Desconsiderar a mensagem recebida em 16.8.2010 às 11h45
    no seu blog. Não fui eu. Te ligo.
    Carlos Paulo

  3. Renata Bortoleto Diz:

    Dê,
    os 30 dão um senso de urgência maravilhoso, e pessoas sensíveis como você conseguem ouvi-lo e têm coragem de obedecê-lo. Não, não estamos velhas. Muito pelo contrário: ainda vamos causar muito nessa vida. Muito. O ceú é o limite. Mas, para entrar no nosso caminho, para começar a trabalhar naquilo que viemos deixar nesta Terra, sim, os 30 são o game over. E ainda bem que você soube disso, respirou fundo e foi. Os problemas existem, mas a paz, alegria e plenitudes são tão grandes que é só tomar umas que passa. Os amigos também são ótimos nessas horas. Eu, que sou só jornalista metadinha do meu tempo hoje em dia, quase uma fugitiva, fico tranquila em saber que tem gente como você na imprensa brasileira. Posso dormir tranquila. Vida longa e próspera para você, coleguinha. Que assim seja sempre!

  4. marcia Diz:

    Prima querida,
    Linda a forma como descreveste a tua vida. Lembro de ti pequena, com os cabelinhos encaracolados, olhos espertos, já fazendo perguntinhas que o tio Guedes e a tia Deize ficavam de cabelo em pé.
    Com a insustentável leveza dos Guedes e o pé no chão dos Ramos, só podia dar certo!
    Um beijo,
    Marcia

  5. Liliane Diz:

    Denizeeee! Que bom ter feito parte, de alguma forma, dessa sua decisão importante. E eu também fiz exatamente esse processo – dei reset na minha vida, mas aos 31 anos. :) Fico feliz que esteja caminhando na redação e torço do fundo do coração para que tudo continue dando infinitamente certo. Um beijão.

  6. Renato Diz:

    Oi Dé, te encontrar de novo, te ler de novo, agora resetada, em rima, não só em prosa. Sigo adorando esse jeito de se mostrar se escondendo, adorando tudo, a prosa, a rima , os sinais e os ocultos. Adoro sentir que se me demorar talvez os rastros se sumam ousejam sumidos. Sigo adorando


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